O Suicídio e a Responsabilidade da Vida

Por Sóror Fortuna 

 


Estes dois temas surgiram simultaneamente no meu quotidiano esta semana e me fizeram refletir um pouco.

Primeiro, o suicídio – um amigo querido que anda passando por árduas ordálias manteve insistentemente esta idéia macabra fixa na cabeça, entre outras durante alguns dias. O que andou me preocupando um pouco. 

Não o julgo, pois quem de nós não pensou nisso alguma vez na vida diante de alguma situação difícil? Creio que todos nós pensamos, mas, são idéias passageiras que se esvaecem com o desabafo das lágrimas. Entretanto, este amigo que só o conheço pela internet e por telefone, mas nem por isso deixa de ser amigo e nem por isso menos querido, chegou a planejar a maneira de se liquidar detalhadamente. 

Além disso, enviou algumas mensagens de despedida para alguns amigos de sua lista de contatos, mensagens estas onde transpareciam marcas de angústia e desalento. 

No entanto, esta pessoa é um ser de muita cultura, um profissional com duas faculdades influentes, jovem, com um potencial incrível, admirado não só por mim, mas por muitas pessoas. 

O fato é que ele próprio não consegue enxergar o seu brilho, as suas virtudes e principalmente as portas abertas que estão à sua frente, pois a angústia e o desânimo o cegaram. Ao receber estas mensagens ficamos preocupados - o Frater Magister e eu. Foi quando o Frater me disse: Vou escrever um e-mail para ele, e eu respondi: por favor, escreve logo porque se isso acontecer eu vou ficar muito mal. E ele escreveu o seguinte:


Caro Irmão;

Penso às vezes não haverem palavras para lhe dizer, mesmo porque não tens uma mente impressionável. Nada do que eu diga parece fazer-lhe demover da idéia mortal.

Pois eu garanto a ti meu irmão, que ao interromper a jornada terrestre, nada fará além de um mero continuísmo. Todas as dores que pensa carregar ou carrega consigo, não te deixarão apaziguar o teu ser.

Só que haverá a diferença da impossibilidade de fazer, a impossibilidade de servir, a impossibilidade do regozijo. Dizem não haver um inferno para se habitar, mas, no entanto ele existe, está em nossas mentes, tanto quanto o paraíso.

Mas uma vez liberto do corpo físico, o inferno que pensa viver se materializará de forma palpável, e com ele toda a sorte de demônios que te dilacerarão o resto de teu ser por uma facção de tempo que para nós mortais, poderá representar uma eternidade.

Portanto, a dor só atrairá dor, a morte não lhe confortará, ao contrário disto atrairá um desespero ainda maior. Penso realmente que há muito a fazer nessas paragens, penso que a vida é uma benção e não um mero acaso. Penso realmente que havemos de fazer algo por aqui, deixar um legado, fazer realmente a diferença. Se são os grandes atos que ecoam pela eternidade, então porque desistir agora? Porque se acovardar e deixar apagar em si mesmo a chama da vida quando o ideal maior é um objetivo alcançável pela experiência na matéria. Quantos estão à espera desta oportunidade. Quantos desejam uma mínima chance de estar aqui para fazer esta diferença que menciono.

Aquele que nunca experimentou, não poderá dizer que já sabe. Aquele que já sabe só poderá viver a glória suprema à partir da experimentação.

Não disse que eu era seu mestre, não disse que seguiria cegamente minhas orientações, pois eu o proíbo de ceifar a sua própria vida. Não por que tenho compaixão de ti, mas porque tenho esperança, e enquanto VIDA houver, a esperança EXISTIRÁ.

Fraternalmente;
Francisco Marengo.'.'.'
Frater Magister.'.'.'


Foi quando me dei conta do papel das pessoas na vida da gente. Imagine, eu ficaria muito mal com este acontecimento, e como ficariam as pessoas que convivem com ele frequentemente, seus pais, amigos, conhecidos, clientes, etc.?

Ao mesmo tempo, um membro da Ordem, colocou o tema “A responsabilidade que cada um tem com a própria vida”, para ser discutido em nossa comunidade do orkut (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=518470). Eu que nunca havia pensado nisso, fui obrigada a pensar e pela primeira vez discordar de Aleister Crowley, quando no Líber Oz diz que o ser humano tem o direito de morrer quando e como quiser. 

Não, o ser humano não tem esse direito. Ele tem o direito de viver como quiser, mas não tem o direito de privar-se da própria vida. Seria este um ato pior que um assassinato, pois este teve o livre arbítrio e o tempo de ponderar seus atos. 

Além disso, ao privar a sua vida o ser humano não está interferindo somente em seu próprio destino e deixando de cumprir a missão a que veio – pelo menos interrompendo essa, mas está interferindo no destino de muitas pessoas e privando-as de cumprir suas missões também. Estando, portanto interferindo na órbita alheia. 

Imagine que seu tataravô houvesse se suicidado há anos atrás,
quando ainda era jovem. Como o destino das pessoas teriam sido diferentes. Você provavelmente não existiria hoje, nem seus pais, seus avós. Entre outros fatos que foram conseqüências dos atos dele... Muita coisa seria diferente. 

Através dos nossos pequenos atos que consideramos sem importância cumprimos a missão a que viemos sem nos dar conta muitas vezes. Há mais ou menos três anos atrás eu fui a uma festa com uma amiga. Lá conhecemos um amigo que se interessou por ela.

Por minha influência dizendo que ele era lindo, etc., ela ficou com ele, embora não estivesse interessada naquele momento. Há alguns dias atrás soube que vão se casar. E se eu não tivesse ido à festa?

Todos nós temos uma missão, nem que seja chamar a atenção de uma amiga para beijar um rapaz bonito. Nem que seja dar um conselho a um amigo, fazer comida para nossa família, escrever um texto para o Orkut, criar um Curso de Magia que se transforma em escola... Nós muitas vezes não sabemos a diferença que fazemos para o mundo e para as outras pessoas. Por isso temos todos os direitos sobre a nossa vida e nenhum direito sobre a Morte. Assim:

“O ser humano tem o direito de viver por sua própria lei, desde que esta lei não interfira direta ou indiretamente na vida das pessoas eventualmente o cercam. Todo homem e toda mulher é uma estrela, ninguém tem o direito de interferir na órbita alheia a exceção de uma coisa nobre alicerçada por um motivo nobre justificável;
De viver da maneira como quiser viver;
De trabalhar como quiser;
De brincar como quiser;
De descansar como quiser;
O ser humano tem o direito de comer o que quiser;
De beber o que quiser;
De morar onde quiser;
De se mover como quiser sobre a face da terra.
O ser humano tem o direito de pensar o que quiser;
De falar o que quiser;
De escrever o que quiser;
Desenhar, pintar, lavrar, estampar, moldar, construir como quiser;
de se vestir como quiser.
O ser humano tem o direito de amar como quiser:
O ser humano tem o direito de morrer, mas somente de forma natural ou involuntária à sua vontade e ainda assim somente depois de haver lutado veementemente contra a morte.

O SER HUMANO NÃO TEM O DIREITO DE TIRAR A PRÓPRIA VIDA, POIS SE O FIZER INTERFERIRÁ ABSOLUTAMENTE NO PEQUENO UNIVERSO A SUA VOLTA, PODENDO MODIFICAR INVARIAVELMENTE O FUTURO DENTRO UNIVERSO PROVÁVEL!"