O MAL NO SÉCULO XXI

por Francisco Marengo

 

Escrito no Templo da Ordem em:

Anno IV: xv
Sol in Taurus, Luna in Gemini
Dies Saturnii
21/04/2007 e.v.

            A maldade neste novo século é algo muito real. Real e tangível, a maldade requer nossa avaliação. É uma ameaça individual ou coletiva. De forma alguma podemos achar essa questão trivial. A maldade  e a injustiça característica do ser humano inferior quer que o Diabo seja percebido como uma personificação da maldade real, para desculpar-se por seus próprios delitos. 
   
             É curioso, como se vê, os vencedores se fazem deuses e infligem o uniforme diabólico aos pobres vencidos. Falam assim os céticos, mais ingênuos que irreverentes ... O mal então seria o bem; seria covardia esquecer as injúrias; a modéstia seria baixeza; a inocência seria taxada de infâmia. . . Para os vícios, tudo ao contrário: o orgulho seria grandeza de alma, a avareza sábia previdência, a arrogância e a cólera seriam marcas de generosidade de alma; a intemperança e a luxúria garantiriam boa saúde física e moral; as injúrias; a modéstia seria baixeza. Será possível que seres pensantes possam iludir-se com tais sofismas? São realmente dignos de lástima aqueles que, confiando nas deduções paradoxais  degeneradas, obstinam-se em não querer compreender que na luta misteriosamente representada por este profundo símbolo, o bem triunfou porque é a ordem, a norma, a harmonia, em uma palavra, porque é o bem; - e que a causa infalível, calculada de antemão, que torna o mal acidental e transitório, condenando-o ao aniquilamento é que ele representa a desordem, o arbítrio, a anarquia, e se chama mal.

                Entretanto, coração da maldade é a violência. Violência é como aquilo que ocorre quando o sofrimento é imposto a uma pessoa. Sofrimento é um aspecto da dor, o qual tem  significados distintos. A causa da dor, quer seja, a violência natural ou deliberada. Esta ação de causar mal é atribuída a Shaitan. O Sofrimento é maldade passiva, resultado da maldade ativa. Mas, como a Igreja explica os excessos sangrentos em que se chafurdou na Idade Média? Será que suas más ações não expressam o seu mau espírito? Porque atribuir ao demônio seus excessos, mas e quanto aos seus erros, não seria o demônio sempre demônio?

                Assim pensam pelo menos algumas pessoas honestas, pois é preciso tomar cuidado com o que agora tratamos por ser um princípio. O erro difere da verdade, assim como as trevas da luz. Não se pode é negar a maldade do homem (por sua essência, o que é bem diferente). Sua manifestação do universo é indubitável, tanto quanto o frio no inverno ou a escuridão à noite. Mas vem a luz e a sombra se vai, vem o calor e passa o frio: porque a sombra e o frio não são dotados de existência privativa, falta-lhes essência própria, são negações. Assim acontece com o erro maldoso, transitório e acidental. Dar essência ao mal é recusar a essência do bem; afirmar a culpa ao diabo como o senhor absoluto do mal, é atribuir o caos a Deus. Sustentar, enfim a coexistência de dois absolutos contraditórios é proferir uma blasfêmia um absurdo em física ou nas ciências, pois onde haveria o "tempo da criação", numa trégua? Ora, o que revolta a ciência, ultraja a razão, assim como a personificação simbólica das influências nefastas, para achar um culpado para seus próprios erros. Um ídolo resultante do sacrifício para o bem humano, poderia ser algo digno, mas quando a maldade passa a se justificar por imposição a esse ídolo ele se torna odioso e porque não grotesco. Esse ídolo desvirtuado é a própria deificação do mal, disfarçado em princípio absoluto do bem, sob uma figura mitológica e como tal oposta ao princípio do mal, paralelamente divinizado. 

            Conviria aos estudiosos dar um rápido olhar aos ídolos ou representações mais ou menos ingênuas das forças reputadas benfeitoras. Em toda parte da história humana vemos esfumarem-se na bruma os fantasmas sinistros para justificarem o sangue escorrido das multidões. Há uma má interpretação por parte do homem aos vestígios confusos de civilizações antigas. O pior é vermos as mesmas barbáries antigas transferidas a conceitos que já não satisfazem a mente moderna. Deveria o imperialismo americano jogar uma bomba atômica nas nações mulçumanas? Deveriam os mulçumanos radicais e fundamentalistas implantar o terror desmedido nas nações que lhes são contrárias? Os judeus deveriam destruir os palestinos? Os palestinos deveriam impor um fim a interminável guerra por um pedaço estéril de terra? Quem era o diabo na história? Hitler ou Mussolini? Os japoneses ao atacarem Pearl Harbour ou os americanos com sua bomba devastadora em Iroshima e Nagasaki? Matar três mil justificam o holocausto de 30 mil, bastando apontar o dedo para dizer: você me provocou? Ou será que de repente, os três mil não foram a justificativa para evitar a queda de um imperialismo vigente com o fito de justificar a guerra?

                Examinemos o curso do rio que se divide em dois com olhar atento: afora essas divindades que as nações proclamam funestas e pretendem honrar com um terror religioso, ainda outras nos parecerão diabólicas, outras que esses povos não marearam, portanto, com qualquer estigma de reprovação. Mas o falso culto heróico lhes foi rendido, entretanto marcou-os com indelével e terrível abominação.

                O livre arbítrio humano pode depravar os mais augustos conceitos - e por uma lei mística evidente, todo símbolo religioso, distorcido por atos infames, metamorfoseia-se em ídolo. Shaitan como opositor a isso está realmente encarnado, para apressar a colheita de sangue humano! 

               No Ano do Senhor, as palavras contraditórias de guerra dos Salmos obtêm completa realização seja a favor dos deuses, ou dos demônios: "Omne Dii gentium daemonia". E é dessa forma que vimos empalidecer todos os astros do firmamento místico à luz da aurora do divino sol substituído pelo poente escarlate que pinta a terra de sangue!

                Os atos imundos da humanidade consumaram a desonra do mito. Foi o ritual inverso que  maculou o mito, e vemos que os tabernáculos ruíram em sua vergonha e o espírito vivificante partiu para longe dos escombros sem valor. Levar mais longe a enumeração das formas malditas que a crença cega, usurpadora das divinas homenagens, acedeu, certamente seria tarefa enfadonha. Não há lugar no mundo onde o vício divinizado não tenha, sob milhares de nomes, multiplicado seus altares sacrílegos. Imputar o 
o sofrimento consciente é o coração da violência moral da maldade. "Maldades naturais" - dizem os falsos sábios.  É pura hipocrisia atribuir catástrofes as necessidades ilógicas do Cosmos. Se pensar assim então Deus que é responsável pelo mundo, é também por estas maldades naturais e os sofrimentos que elas impõem. A doutrina kármica não pode aliviar Deus dessa responsabilidade. Karma é a distinção entre o que uma pessoa estritamente pretende por uma ação e o que antevê como o provável resultado. É como incitar uma guerra nuclear com a pretensão de libertar o mundo da injustiça. Parece impossível que uma onisciência de Deus saiba, certa e claramente, que, criando o Cosmos, ele cria um Cosmos no qual as crianças são torturadas. 

                Se nenhum padrão de valor existe além das preferências pessoais, então nada é realmente bom ou mal. A outra corrente oposta é a renovada consciência da maldade, algumas vezes unida com o interesse revivido na natureza do Mal.  Os horrores da história da humanidade traz uma reavaliação das hipóteses de progresso, pois percebe-se claramente que a maldade é inerente à natureza humana e talvez ao COSMOS. 

                Mas de que adianta divagarmos sobre a natureza demoníaca dos seres, uma vez que o entendimento só pode ser conhecido em menor grau pela experiência uma vez que o que o conhecimento privativo e não necessariamente validado não é socialmente aceito. Entretanto a humanidade faz questão de criar mitos e estórias fantasiosas mesmo sabendo que tal conhecimento não é validável dentro de um sistema coerente, e não sendo conhecimento em si, é a mais tola superstição. Todos somos supersticiosos por algum tempo, e alguns de nós são supersticiosos o tempo todo. 

                Hoje temos mais razões que antes para estarmos preocupados com a maldade que parece permanente na conduta humana. E a estudarmos com o fito de aprender a conviver com a essência do mal inserida em nosso ser, uma vez que esteja provado ser impossível nos distanciarmos dela.  É por este estudo iniciaremos o processo de colocar um início na real  evolução, no progresso e nos padrões de vida. Somente pela luta contra a a hipocrisia social, política e religiosa, teremos uma visão clara dos conflitos da alma e se tivermos uma real coragem, poderemos ter alguma chance de afastar a ruína que se desenha constantemente na humanidade.

Escola Iniciática Esotérica Caminhos da Tradição

Outros Ensaios:

www.cursosdemagia.com.br/ensaios.htm