INQUISIÇÃO
 
por Francisco Marengo
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Tortura d'água: ao réu, preso à mesa, durante o "interrogatório" 
era dada água até o seu ventre se partir.
 
    Alma imortal, abrigada, mais do que encurralada, mais do que encarnada, cuja personalidade formada, por inúmeras experiências de várias vidas, cujos indícios revelam em sua essência sombras de um passado distante. Alma que se esvai e que vem numa necessidade de manter o ciclo contínuo, na busca por novas lições que a Terra há de ensinar. Com o direito inalienável de ir a qualquer parte, mas cujo lugar ela tem por aqui. Não se evolui, ao contrário do que muitos pensam pela ausência dos desejos e pela total falta de sentimento. Ora porque está aqui nobre alma, senão pelo laço que te prende, elo que resta na linha tênue de tua existência. Estamos aqui, bem conscientes de que trabalhos ocultos fizemos, cujas vidas anteriores nossos caminhos confluíram. E não existe laço mais forte do que este. Esse laço jamais é rompido nem mesmo quando os liames do amor e do ódio forem afrouxados. Mas a trilha pode ser perdida, quando a encruzilhada surge ao livre arbítrio dando-lhe a opção do Caminho. E o preço da escolha é a própria vida. Na Inquisição de época tenebrosa e sombria, cujo aqueles eram e que somos, tinham a consciência dos raros poderes da mente, apesar de compreender os seus perigos, pois a magia era pouco entendida e nada reverenciada, assim aqueles que levados por seus vis objetivos, cuidavam de destruir a quem ousasse manifestar tais poderes ou conhecimentos sofreria as sanções pelo confessor e pelas leis do clero.
 
    Não havia o sentido de liberdade, se bem que aqui ainda hoje esse sentido seja duvidoso, pois cada um conhece muito bem o preço que é pago por aquilo que é expõe. Muitos inocentes morreram, cuja justiça era totalmente imparcial, queimados até virar cinzas, pois assim se conhecimentos houvessem morreriam com eles. Por outro lado não haviam dúvidas de que na mente daqueles cujas acusações pesavam, que um profundo conhecimento era pouco disseminado, cujas práticas pelas Fraternidades Secretas eram guardadas, pois entendiam que se esse conhecimento caísse em mãos indignas, haveriam de abusar terrivelmente desses segredos. E, temo em dizer que o clero, obscuro ignorante e corrupto muitas vezes era instigado a destruir as chaves que levariam a mentalidade profana e vulnerável, a abrir os portões da vida interior, mas que ao se arbitrar como vigilantes entre os homens comuns e as forças das trevas, destruíam a afastavam pelo seu próprio menosprezo as artes, pois afinais ignorantes e obscurantistas, afastavam também a possibilidade do ser humano descobrir a sua própria essência.
 
    Mas enfim um dia a criança despertará de seu sono, e abrir-se-ão as portas daquele luminoso mundo que se cerraram atrás de si numa vaga lembrança distante. Sem ousar desafiar as leis da natureza, mas ousando o equilíbrio e a sintonia com elas, o homem será apanhado novamente em sua correnteza, cujo fluxo uniforme da evolução será absorvido tal como um turbilhão, sem se desviar de suas marés para seus insignificantes fins pessoais.
 
    Se invocares o ciclone para apagar suas velas e levar-vos sem direção e sem curso, desconsiderará que muitas casas de muitos homens poderão ser arrastadas por este vento, e que as colheitas que são fruto de seu paciente trabalho poderão cair por terra.
 
    Pois aquele que é sábio e invoca as forças da natureza, compreende que a essência dessa lei é a ação e reação iguais e opostas no plano que foram invocadas, pois se agita o balanço do pêndulo, não se pode escapar do balanço de volta.  E nas profundezas do sono quando sentires chamado saiba que, a cada volta na carne fruto dessa longa jornada, poderá ser um despertar no meio da noite, cuja natureza da alma revigorada pode de um grande peso ser libertada.