ESTUDO DO OCULTO

SANIDADE OU LOUCURA?

por Francisco Marengo

 

O que eu vou explanar agora compreende uma palestra que dei sobre o assunto há alguns anos. Esta palestra se refere principalmente ao estudo em que Eliphas Levi coloca sobre obsessões diabólicas, doenças nervosas que afetam o cérebro por uma luz astral pervertida. Assim ele coloca que: "todas as tensões extraordinárias e extranaturais da vontade predispõem às obsessões e às doenças nervosas. O celibato forçado, o ascetismo, o ódio, a ambição, o amor não correspondido são outros princípios geradores de formas e influências infernais".

Essa advertência de Levi poderá parecer insuficiente, e assim talvez dei algumas explanações do meu ponto de vista.

Em muitos grupos esotéricos e fraternidades ouvem-se tantas advertências severas contra a magia, que seria bom se tentássemos discutir o assunto com franqueza.

Existe algum perigo na prática da magia? A resposta é: "Sim, é claro que existe. Em tudo pode haver abusos; quanto mais poderosa a coisa é para o bem, maior é o mal se empregada erroneamente". Mas isso é verdade para muitas coisas que encontramos na vida diária, e deveríamos manter o senso de proporção nesses assuntos.

Os perigos do trabalho mágico podem ser divididos em riscos espirituais, mentais, emocionais e físicos. Vamos brevemente estudá-los nessa ordem. Perigo espiritual - o que queremos dizer com isso? Simplesmente, são a presunção e o orgulho satânico, por causa dos quais, como diz o poeta, "os anjos caem".

Esse é o vicio característico do seguidor do caminho oculto, e a maioria dos estudantes da magia segue esse caminho. O distanciamento intelectual e o frio desdém pela "massa ignorante" são muito comuns nos círculos ocultos, e uma vez que os ritos mágicos exigem muita concentração e aplicação contínua, os estudantes começam a sentirem-se superiores aos demais à sua volta.

Mas isso deveria fazê-los muito mais humildes, já que estariam começando a perceber que a única justificativa para a prática da arte mágica está no fato de serem capazes de ajudar seus irmãos. "Eu desejo saber a fim de servir", diz o neófito nos Mistérios, e essa é a única razão pela qual nos deveríamos nos manter ao longo desse caminho.

Quem não faz caso dessa advertência e não subscreve esse compromisso dá o primeiro passo no caminho descendente e, embora possa conquistar muito poder e conhecimento, ainda corre perigo de se tornar um dos Filhos da Perdição,  para quem está reservado o negrume da escuridão das eras. Contudo, a "inflação do falso ego ou ego empírico, como dizem os psicólogos, significa que em um ponto ou outro o desastre espiritual aguarda quem se esforça para se isolar no menosprezo arrogante de seus irmãos".

Quais são os perigos mentais-emocionais? Para responder a essa pergunta é necessário lembrar que a personalidade é construída durante a vida terrena pelas experiências que tem e como reage a elas.

Uma vez que essas experiências são muitas e variadas, e uma vez que as reações da personalidade são excessivamente complexas, costumamos chegar à meia-idade com a personalidade construída quase sem nenhum plano definido.

Aqui lutamos contra as circunstâncias, ali cedemos a elas. Aqui enfrentamos condições adversas e aprendemos as lições que elas ensinaram, obtendo assim o seu poder, ali tentamos escapar das referidas condições e da necessidade de tomar as decisões relativas a elas.

E assim vai, de forma que se poderá ver que o templo da personalidade é geralmente formado por estruturas muito curiosas, construídas de materiais desconexos e mostrando poucos traços de um plano coerente.

Para dentro dessa estrutura atraímos as forças e os poderes do universo, e não é de estranhar que essa casa da Personalidade seja destruída pelos raios das forças Invocadas.

Simplificando, a presença do poder invocado age sobre todas as partes de nossa psique, e os complexos reprimidos bem como a consciência integrada sente essa pressão. Assim, algumas vezes acontece de um estudante de magia começar a mostrar sinais de instabilidade mental.

Sob a orientação de um instrutor experiente pode acontecer o que é conhecido como catarse mental ou purificação, e o material reprimido, tendo sido retirado para os níveis conscientes, torna-se integrado com a consciência normal.

Os sintomas de desequilíbrio desaparecem, e os estudantes certamente ganham com a experiência. Mas, algumas vezes, fatos como esses não se podem realizar. Os complexos profundos estão carregados de poder e não podem emergir para serem integrados na consciência.

O resultado é a perturbação mais ou menos completa da mente. Mas precisa ser lembrado que isso e ocorrência muito rara, embora, quando acontece, pareça justificar o papagaio que repete sem cessar que o estudo da magia enlouquece as pessoas.

O estudo da magia pode fazer de algumas pessoas casos psicopatológicos, mas deve-se ter em mente que psicopatia já estava lá, antes do estudante começar  o trabalho mágico. Tudo que a magia fez foi trazer a doença à manifestação ativa.

O estudo das coisas misteriosas atrai um certo tipo de psicótico, e não faz multa diferença se a atração é a magia, o espiritualismo ou as testemunhas de Jeová. O espiritualismo tem sido, juntamente com a magia, o mais injustamente acusado como causa de insanidade.

As estatísticas divulgadas pelas autoridades dos hospitais de doentes mentais alimentam essa mentira. É importante apontar que todas as estatísticas podem ser mal-interpretadas ou distorcidas. Se, por exemplo, três de cada doze espiritualistas perderem a sanidade, poderá parecer uma prova contra o assunto, mesmo se, no número total dos casos psicopatológicos, as cifras espiritualistas forem pequenas, pois os espiritualistas formam porção relativamente reduzida da população do país.

É sobre a percentagem de insanidade dentro do espiritualismo ou das organizações de magia e ocultismo que o veredicto deveria ser buscado, e, julgando por esse critério, os três grupos supramencionados emergem triunfalmente.

Mas existe uma coisa que cria certa dificuldade na aferição da tendência de alguns desses movimentos para causar doença mental. Qual era a condição mental da pessoa antes de ela  ter integrado no movimento? É uma idéia comum entre o público geral que os médiuns e sensitivos "ouvem" e "vêem" coisas que não são visíveis aqueles a sua volta.

Mas os perturbados mentais também o fazem, e acontece que esses infelizes que ouvem vozes e têm visões vão gravitar em tomo das organizações psíquicas. Se eles forem reconhecidos pelo que realmente são, isto e, pessoas mentalmente doentes, então está tudo bem. Eles podem ser orientados dentro da organização em pauta e, por meio do entendimento do seu caso, poderão receber tratamento adequado que, embora seja não-ortodoxo do ponto de vista médico, pode ser muito eficiente, pois nem todas as psicopatologias podem ser explicadas nos termos da medicina ortodoxa, e nem todas as "personalidades intrusas" como desdobramentos da mente do paciente.

Tendo chegado a uma definição conveniente, somos então confrontados com outra dificuldade. O que quero dizer com "mudanças na consciência"? Será necessário, então, considerar (a) o que é consciência e (b) o que se quer dizer com essas mudanças de consciência. Deve ser lembrado, contudo, que a psicologia não está suficientemente desenvolvida ainda como ciência para ser considerada uma estrutura unificada de conhecimento.
 
Existem diversas escolas de psicologia diferindo em suas explicações dos fatos observados. Os seguidores de Freud colocam a maior ênfase sobre um aspecto da vida; os seguidores de Jung enfatizam outro. Jung a meu ver estava mais próximo em suas teses das tradições mágicas.

 
Está entendido que, por trás da vida manifestada de animais e homens, existe uma força impulsionadora que tem recebido muitos nomes. Os psicólogos se referem a ela como libido ou, algumas vezes, como Id. Esse impulso básico se manifesta naquilo que é chamado de instinto fundamental e, na classificação comum, ele costuma ser dividido em três, a saber: instinto de autopreservação ou vontade de viver; instinto sexual ou vontade de criar; e instinto de clã ou impulso social.
 
A esses três, Jung acrescenta um quarto instinto, que ele reivindica como prerrogativa unicamente do homem - o instinto de religiosidade. Esse instinto e o contrabalanço dos três impulsos biológicos dos instintos primitivos e é, portanto, parte essencial da constituição do homem. Qualquer que seja o sistema psicológico adotado, se não tiver esse ponto essencial, falhará em cobrir plenamente o domínio da personalidade humana.
 
Embora, nos primórdios do homem, os três grandes instintos predominassem, mesmo lá o instinto religioso já estava atuando. À medida que a humanidade evoluía, a mente consciente gradualmente desenvolvia-se e começava a abrandar a intensidade de alguns impulsos instintivos, direcionando essas energias para novos canais.
 
Pois bem, falarmos de Magia é algo emocionante, atrativo para a mentalidade profana, entretanto, a pergunta é: Para que estudo Magia? De minha parte eu já respondi, para servir, mas e todos por aqui, qual o real objetivo deste estudo. Teorias e teorias criam teóricos de mesa de botequim, e disso a internet e o dia a dia já está repleta. Mas e a prática? Por onde devo começar... Se servir de ajuda o meu primeiro impulso é ter atitudes no dia a dia que nos tornem cada dia melhores do que nós somos. Atitudes superiores tornam a mente superior e esta é a base de formação para o futuro mago.
 
Khonx Om Pax!
Luz em extensão!
 
Fraternalmente;
 
Francisco Marengo
Frater Magister.'.'.'
E.I.E. Caminhos da Tradição
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