
Escuridão
& Luz
Por Francisco Marengo

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A mente humana não consegue imaginar os estranhos e terríveis
mistérios que se escondem no mundo invisível. O homem acha que ele já não
tem mais o que pesquisar no espaço que o cerca: ele determinou as distâncias,
mediu as temperaturas, analisou a composição das substâncias e, no entanto,
os seus instrumentos, onde quer que seja, só encontraram o vazio, o frio e a
escuridão...
Para
estudarmos o mal, sem o qual nós não podemos aprender a fazer bem, pois não
se pode defender-se de um perigo que não se conhece. Justamente é a
ignorância que desarma o ser e o leva a derrota. É a ansiedade que destrona o
rei, mata o guerreiro, limita o conhecimento, semeia discórdias e desordens por
todos os cantos. A ignorância nos faz caminhar contra as forças que governam o
Universo.
O poder
superior e a perfeição criam seres imperfeitos e os obrigam a elevarem-se até
o protoplasma de um arcanjo, através de milhões de mortes, a padecer em
função de seus instintos, cujo germe foi concebido junto com eles, e a
torturar-se com todos os sofrimentos possíveis da alma e do corpo, até que se
atinja a almejada Luz. Mas seria esse o único caminho? Um caminho de dor,
torturas e morte? Qual o ser humano que realmente aspira evoluir através dessa
agonia infinita? À perfeição, como à bem-aventurança suprema? Vaga promessa
de uma felicidade duvidosa! Como se fosse tão desejável alcançar a harmonia,
que representa, sob a máscara de imparcialidade e amor à humanidade, nada mais
além do que uma profunda indiferença e egoísmo empedernido.
Nós nos insurgimos contra essas leis implacáveis que prometem alegrias
remotas e desconhecidas, enquanto sentenciam, de antemão, as infelizes
criaturas aos sofrimentos inumanos - elos inquebrantáveis de uma corrente
infinita, geradas imperfeitas e escravas do trabalho sem fim, que
a ignorância empurra autocraticamente. E com que direito? Sempre se sustentando
naquela terrível lei da escravidão do fraco pelo mais forte. O fraco ignorante
é sempre esmagado pela roda daquele que sabe governar as leis. A humanidade
extenuada chora cônscia de sua ignorância, treme e consome-se: na terra - do
medo da morte, sempre a ameaçar como a espada de Dâmocles (“Dionísio,
o
poderoso Rei de Siracusa, a mais rica cidade da Sicilia (432-
O chão das igrejas e religiões está surrado pelas marcas de joelhos de
homens aterrorizados que clamam por um falso Deus misterioso, suplicando-lhe
clemência e misericórdia, e, no entanto, o falso deus em tom mais zombeteiro
que o nosso - que vocês chamam de "satânico" -, responde: - Vivam
segundo a Minha inabalável lei, ou seja, a lei que homens mesquinhos tentam
impor aos vulgos. E esta lei proíbe que vocês se utilizem dos instintos
inseridos em suas almas, sendo que a manifestação livre desses instintos chega
a ser criminosa por chocar os preconceitos meramente mundanos.
Disciplinem os sentidos de acordo com a massa de conformismo a vocês
concedidos pelas igrejas, e viva sua vida só com o que for imprescindível para
o movimento universal, que os impele para trás para transformarem-se na farinha
celestial da qual se panifica a matéria primeva.
Por que tanto espanto com minhas palavras? Dê uma olhada ao redor e a
justeza de minhas palavras ficará patente. Quem conhece o deus da igreja? Quem
sabe o que ele é? Normalmente o explicam assim: “É Pai todo-misericordioso,
infinitamente bondoso, refúgio de todos os sofredores, protetor dos fracos e
deserdados, sempre preocupado com a felicidade de suas criaturas”. É na
teoria histórica. Pois na prática basta respirar para sofrer; e todo bom
sentimento é punido cruelmente naquilo em que ele se manifesta. Por exemplo, o
amor à primeira vista, é o sentimento mais puro do coração humano, mas o que
ele proporciona além dos sofrimentos? Uma morte cega e cruel subtrai os seres
mais queridos; a doença acorrenta as pessoas ao leito da dor; um destino
caprichoso lança na miséria as pessoas mais nobres; a fatalidade persegue os
mais puros, causando-lhes sofrimentos que somente podem ser suportados pelo
infeliz coração humano. E para que tudo isso? Para depurá-los; para testar a
sua fé na misericórdia de Deus... O que já não foi inventado para testar a fé
das criaturas!? Que cruel escárnio! Junto do banquete para ser servido aos
eleitos, acomodam-se os deserdados e famintos, permitindo-se que eles admirem,
de estômago vazio, como se refestelam os comensais. Mas... ai deles se lhes
passar na cabeça a vontade de estender a mão em direção a algum naco de pão.
Sobre eles desabará o fogo celestial; uma voz irá vociferar: “Não ouse
tocar naquilo que pertence ao seu próximo”! Você é privado do essencial
para a sua própria purificação. Você deverá morrer de fome para que a sua fé
seja testada. A recompensa aguarda-o no paraíso! Vaga promessa de uma
felicidade incompreensível. Com a morte decretada inutilmente devido a toda espécie
de provações, um pobre faminto, que furtara um pedaço de pão e fora posto
atrás das grades, quebra a cabeça para conseguir entender: por que, gerado com
um estômago que exige alimento, é crime contra a Divindade haver pegado o que
ninguém lhe dá para a satisfação da primeira necessidade? Por que só os
outros têm direito de almoçar e jantar, enquanto ele não tem direito nem ao
menos a uma casca amanhecida?
"Não filosofe e se submeta com fé e humildade à sapiência
divina, que só lhe deseja o bem" - dizem-lhe. É claro que essas palavras
são muito reconfortadoras, mas continuam sem explicar nada da
mesma forma. De igual maneira são misteriosas e incompreensíveis às
causas de sofrimento dos seres inferiores, pouco desenvolvidos, é claro, não
obstante capazes de sentir e entender o sofrimento. Existe alguma sentença de
morte que um ser humano, para a satisfação de sua gula, sua preguiça e de sua
falsa, mas famigerada sede de saber, não utilize contra esses indefesos seres
que não são protegidos nem por céu nem por inferno?
Muitos se esforçam para se vingarem pelas injustiças sofridas, e a
Magia não tem melhores aliados como os espíritos que ela invoca e atiça
contra os homens mesquinhos. Em função dessa luta, motivada por ódios
mortais, nós finalmente triunfamos sobre as forças escravizadoras que nos
condenavam ao trabalho escravo e ao sofrimento, atirando-nos, feito uma esmola,
nesgas de conhecimento. Não, nós queremos saber tudo, só queremos penetrar no
saber da criação e ter a chave do mistério. Se você prega somente à
revolta, sofrerá, mas se você quer ser sempre o bonzinho hipócrita, fingir
que é o bom samaritano, os céus não lhe atenderão no sofrimento e os demônios
devorarão suas entranhas quando lhes pedir ajuda. Esse será o destino dos
mornos.
A existência da contradição é aparente, pois, conforme eu disse
antes, nos corações dos aspirantes a nossa Iniciação há tanto bem quanto
mal. Essa insegurança, sempre renascente, essa luta entre os dois instintos é
justamente o sofrimento que nos legaram com o fito de aprendermos. E por que nós
não podemos oferecer proteção aos profanos e prevenir as catástrofes da
vida? Quem sofre, entende dos sofrimentos dos outros, principalmente se
conhecemos e amamos esses outros. Não importa que eles vão nos enfastiar com
as suas gratidões; mas você achará totalmente natural que nós ofereçamos a
proteção, essencialmente, para aqueles cujos desejos são mais passionais,
para aqueles que são mais audaciosos; pois o nosso exército necessita daqueles
cujas vidas foram esmagadas e asfixiadas em suas garras, e que tenham sido
suficientemente martirizados e desprezados sem razão, para ficarem com aversão
a seus ímpetos magnânimos e a sua aspiração ao céu. Aquilo que vocês
chamam de "virtude", "humildade cristã" etc..., ou seja,
tudo aquilo que, entoando "aleluia", é suportado sem rancor frente às
injustiças e perseguições, nós chamamos de pusilanimidade, que não é
respeitada nem na Terra nem no Astral...
Para provar este axioma é possível trazer uma série de exemplos. Os
pais que se sacrificam para educar os filhos enchendo-os de mimos, ao educá-los
morrem, mutilam-se ou perecem moralmente, enquanto os filhos que são ensinados
a viver as aventuras do mundo - florescem, crescem e trazem-lhes alegrias e
reconhecimento.
Da mesma forma, uma mulher hipócrita repleta de falsas morais, sobrevive
à sombra e na solidão; enquanto uma sacerdotisa de nossa Tradição –
inteligente e intuitiva é reverenciada, brilha na primeira fila.
O forte sempre triunfa; ele é invulnerável em sua satisfação mesmo
que um tanto egoística. E sempre os fracos são responsabilizados por ele.
Essa hipocrisia social absurda faz com que quando os pais são devassos,
quem sofra o castigo sejam os filhos, nascidos de um amor ilegal para a
sociedade; sobre esses desaba toda a fúria da falsa virtude moralista
afrontada. Os pobres filhos, testemunhas inconvenientes da vergonha, que ousam
ainda reivindicar certos direitos, são rejeitados, asfixiados, afogados ou
entregues para a "engorda" nas mãos cruéis do destino, onde, na
pressa de se ver livre de sua dor, estas pequenas e indefesas vítimas são
condenadas para servirem a duas mortes seqüenciais: a do espírito e a do
corpo. Ambas as passagens são duras e inúteis nestas condições. Os pais e as
mães dos sacrificados permanecem, no entanto, incólumes; continuam a freqüentar
a sociedade e são os que mais alto falam em defesa da moral, enquanto esta,
indulgente, fecha os olhos para as suas fraquezas.
O assassinato, dizem, é um dos crimes mais odientos. Por que é que então
o massacre de milhares de inocentes permanece impune? Terra, dizem também, foi
dada a homens para nela se encarnarem, suportarem provações preestabelecidas e
se aperfeiçoarem. Mas por que, então, tantos seres são descartados para o
mundo invisível onde eles não têm condições de cumprir com esses propósitos,
doridos, repletos de fluidos vitais, inúteis para eles? E, no entanto,
asseveram-nos que nada ocorre por acaso e que em cada átomo existe o elo
imprescindível ao grandioso "tudo". Mas, pelo visto, essa estranha
anomalia não diz respeito a ninguém, e ninguém se apressa
Se você pretende vir até nós estudar a essência do bem e do mal, ótimo.
Se você chega até nós com vistas
de nos vencer com as nossas próprias armas. Tanto faz! Nós resistimos,
inclusive, a ataques de adversários bem mais fortes que você. Agora eu lhe
responderei, sem vacilar, por que nós lutamos contra as forças muito mais
poderosas que as nossas e vencemos. É porque nós não estamos como você no
limite do desespero. Nós podemos contar com o poderoso Senhor Portador da Luz.
Ele não terá misericórdia de nossos inimigos, semelhante a uma máquina
infernal que o arrastará para uma turba enlouquecida.
Se o seu coração e inteligência sempre esbarram no incompreensível,
é porque você é parte integrante do desespero o gênero humano. Daqueles que
ao invés de respostas, só encontram silêncio e mistérios insondáveis que
envolvem o passado e o futuro de toda a criação. E assim vai girando no
infinito, os mundos e os seres, sem conhecerem o caminho a seguir.
Só uma coisa é clara: se você é um falso moralista, hipócrita, se
você é um corrupto, você é governado por duas forças terríveis. Uma delas
o empurra para frente e a outra - o detém e impedindo o seu retorno à sede. Ao
encontro dessas forças, você se debaterá inutilmente e no final engrossará o
exército de demônios que nos assistem e nos servem.
No intermédio entre a ordem e o caos nós vemos o objetivo final da dança
da vida e ficamos de posse da chave do enigma, antes de atravessarmos a ígnea
barreira límpida que nos oculta os grandes mistérios da existência. Talvez
esse santuário seja inacessível para todos, mas nossos esforços serão
coroados para edição de uma nova lei, quando então ficaremos cercados por um
exército de átomos claros, um exército de sabedoria, por virtudes de poder e
beleza de perfeição ilimitada, e nos tornamos senhores daqueles muros
fulgurantes que nos separam para sempre do mundo com o qual estamos ligados com
todas as fibras do coração.
Os lábios dos arcanjos estão cerrados pelo grandioso selo dos mistérios;
o silêncio é o seu poder. Mas quem poderá nos provar que esses seres límpidos
não estejam arrependidos por terem vencido todas as suas fraquezas, que
emocionam o coração imperfeito de humanos? Não seria essa a lenda do Arcanjo
Caído? A alma aparentemente límpida é estúpida e vazia, pois está, perdendo
o hábito de chorar, amar, sentir as alegrias e penalizar-se por aqueles que
sofrem. Com um olhar apático, ela observa as duras provações daquele que
outrora amou. Egoísta ela não tem outro interesse além da qualidade da luz ou
da falsa bem-aventurança da paz infinita.
Mas, se por um lado nos é difícil descortinar os mistérios que nos
cercam, podemos tentar impedir o movimento descendente dos espíritos. Quem é
que está em condições de garantir que nós não seremos o fiel da balança na
hora da transição dos Aeons? Que tipo de tempestade será desencadeada? Que
tipo de mudanças ocorrerão por conta da alteração do equilíbrio? Quem, no
fim das contas, irá governar o Universo?! Você quer fugir? E para onde? Aonde
você vai se esconder das verdades amargas que eu disse? Em vez de correr do mal
é melhor aprender a governá-lo, não no intuito de vencê-lo, mas para fazê-lo
seu aliado e impedir que a odiosa e cruel força o impila para trás. Se você
fraquejar e a sua alma tola for buscar a luz nas convenções retrógradas da
religiosidade humana, você será arrastado pelos cabelos para o abismo, e cada
degrau que cair martirizará o seu corpo e a alma, e os demônios o trarão
ensangüentados e dilacerados aos pés do Mestre das Trevas.
Olhe agora para o céu noturno. Lá, no meio de centenas de milhões de
vias lácteas, reinam as energias criadoras e destruidoras, entrelaçados num
eterno romance astral (como diria Raul Seixas). Mas naquele redemoinho celestial
se você não se emancipar se transformará, no máximo numa mola, num fio elétrico
a mais da máquina criadora, sem preservar sua individualidade e a consciência
de si: você deixará de odiar e amar, e fará parte da rotação universal,
"perfeito e imperfeito" e "feliz e infeliz", pois de você não
sobrará nada além do vazio, que substituirá o seu coração morto...
Que esse meu discurso o domine com tal força, que se diante de você
aparecer os mentirosos oferecendo as portas do céu que lhes serão abertas, você
instintivamente recuará, duvidando da falsa luz diante de seus olhos sem
nenhuma empolgação. Tudo que as religiões opressoras dizem é falso, e quando
é verdade, geralmente é enfocado sob um falso ponto de vista. Eles não querem
admitir que para a alma - já que ela é imortal - seria insuportável
permanecer estática num único lugar por toda a eternidade, e que as transformações,
por mais que elas sejam difíceis, possuem um grande objetivo inevitável.
As perspectivas das falsas religiões abominam o ser humano poder se
tornar uma das molas propulsoras da perfeição, que deve sempre constituir-se,
entretanto, num ideal que qualquer espírito deve almejar. Livrar-se para sempre
de dúvidas que atormentam, de sentimentos mesquinhos e de impulsos ilógicos,
para abraçar toda a humanidade num sentimento de liberdade e amor puro e harmônico,
desprovido de qualquer interesse pessoal, mas que ao mesmo tempo deve ser uma
felicidade completa com as alegrias terrenas, pois afinal aqui estamos. Além
disso, por acaso, a sensação da consciência saciada em ter alcançado a
totalidade do ser e compreendido a origem e a finalidade de todo ser existente
fará toda diferença. Os
deuses valem a pena serem alcançados, da mesma forma, para compreender e vencer
o mal é necessário estudá-lo. As legiões das trevas são numerosas e
poderosas, todos esses espíritos vêem no sofrimento uma injustiça, e, esperam
por meio da difusão do seu saber, deter a inexorável dor da existência.
Para vencer esse exército de cegos que permeia a humanidade, nós
devemos estudar o mal; e sabermos utilizá-lo, e para nos elevarmos até a luz,
a qual, apesar de todos os obstáculos, nos arrasta a ela, feito uma mariposa à
lâmpada. Nós fomos feitos de luz e nela nos transformaremos de novo. Nenhuma
escuridão pode se misturar com a origem ancestral da pureza luciferiana
perfeita. É possível que alguma imundície se grude a ela, mas chegará à
hora que esta mácula se soltará e se transformará em cinzas, e de seu bojo
fulgirá uma luz ofuscante, que representa a essência de nosso ser, uma herança
eterna de nosso verdadeiro lar. E a este lar nós retornaremos, apesar de todas
as provações no infinito caminho através de todos os reinos da natureza;
superando todos os sofrimentos e amarguras passadas, para depois gozar de paz, a
bonança, o amor e harmonia perfeita.
E.I.E.
CAMINHOS DA TRADIÇÃO