Algumas considerações
sobre a Bíblia

por Francisco Marengo


Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei

Este é um artigo que trata basicamente de considerações sobre a Bíblia, e foi escrito sobre um atendimento que fiz, on-line, à pergunta de uma pessoa interessada nas Organizações Mágickas das quais sou o representante para o Brasil: S.O.T.O. - Society Ordo Templi Orientis Brasil e a Sociedade ORMIUN (Ordem Mágica Iniciática Universal), eis a sua pergunta:

"Saudações Frater Magister,

Eu recebi faz um tempo o manifesto da SOTO a qual eu pedi para você... eu ainda estou decidindo sobre a filiação... mas notei q no manifesto, disse que o espiritismo trata com "cascões astrais" se não me engano cascões astrais são demônios do mundo de Qlipoth... ou seja o espiritismo trata com demônios... estaria certo por pensar dessa forma??? no caso vocês estão 
seguindo a Lei de Moisés??? E quanto a Ormiun é a mesma coisa que a SOTO??? Tem o mesmo manifesto??? 

Obrigado pela atenção..."

Resposta:

    Caro amigo:
    Todos os pontos de vista que expressar agora, considere-os apenas como fragmentos da minha Verdade e da minha Interpretação pessoal. Isto posto, verificará que meu intuito não é impor aquilo em que acredito a quem quer que seja.
Considere antes de mais nada, que a Bíblia possui múltiplas interpretações, e cada um a interpretará da forma que julgar mais conveniente ou segundo a sua capacidade de assimilação intelectual. Assim a Gênese, em minha opinião, é pura 
alegoria esotérica e cabalista. Apenas pessoas sem o mínimo de esclarecimento científico considerariam a parábola de Adão e Eva como um episódio verídico literalmente ocorrido "naqueles tempos". 

    Entendido este ponto, vemos por aí a diversidade de religiões cada uma considerando seu "deus" como único e exclusivo; se não acreditar, leia os Salmos e lá verá o retrato de um "deus" por vezes mesquinho, partidário e até cruel. Assim eu diria a você que a melhor forma de interpretar os mistérios seria libertar a mente de influências externas, venham elas de onde vierem. Se você não se torna senhor de si mesmo, terá sempre falsas percepções e toda influência externa será desfavorável à conquista de si mesmo, à assunção plena do seu "Eu" interior, que poderia representar a "Visão ou União com Deus ou Samadhi". 




Moisés, um grande Iniciado nos mistérios, que teve uma vida pacata na corte Egípcia, até o dia em que matou um egípcio. E em determinado momento, em seu êxodo, estando liderando um povo até a "terra prometida", teve de atravessar regiões inóspitas até atingir o seu objetivo; para isso - ele sabia - a única maneira seria alinhar a crença de seu povo num único e verdadeiro "deus". 

Mas, isto só não bastaria, raciocine comigo, seria necessário alinhar também o seu modo de pensar, de agir, por temor a este "deus". Então este decide afastar-se por um tempo, até que tivesse a "tal revelação", e esta veio na forma das famosas "Tábuas da Lei", apresentadas como tendo sido escritas por "Deus", que "manifestando-se" a ele, teria dito:"Eu sou teu Deus que te fez sair da servidão do Egito" - que nada 
mais é do que o ensinamento hermético que trata da liberdade dos sentidos. Em "Liber Oz", você tem: 

"Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei". 

"Não terá outros deuses diante de minha face" (palavras do "deus" de Moisés) - bem, ainda nos dias de hoje, como provam as famigeradas "aparições da virgem", evidencia-se que as pessoas são facilmente induzidas com base numa crença aliada a uma fé cega, a ponto de idolatrar uma mancha no vidro de uma estante, num sanduíche ou no vidro de uma janela. O que dizer, então, daquela época onde o ser humano era dado a idolatrar tudo aquilo que não compreendesse? Nesta questão de deuses você precisaria aprofundar-se no tópico esotérico que trata sobre "egrégoras e criações mentais ou artificiais," coisa que não explicarei aqui por fugir em demasia do assunto.

   Continuamos com Êxodo 20, vs. 4: "Eu sou o Senhor teu Deus, um Deus zeloso que castigo cruelmente a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que daqueles que me odeiam, mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam." - Ora, que deus justo e piedoso é esse que castigaria o filho em detrimento dos erros dos pais? Todos nós esoteristas sabemos que o ser humano é unicamente suscetível as Leis do Karma, assim todas as inter-relações familiares são agrupadas por um processo Kármico. Assim seria possível que o assassino de uma pessoa voltasse numa outra vida para resgatar como pai, filho ou irmão da vítima o crime praticado. Não há um acontecimento sequer no Universo que não tenha um motivo para ser ou existir. Você colherá o que plantar em sua vida, e esta colheita será obrigatória, mas ninguém irá colher o fruto de sua semente, só você mesmo! 

Enfim para que não fiquemos monótonos temos:
"Não matarás" - pois é, pena que os judeus e palestinos não sigam este mandamento; pior ainda seriam os atentados terroristas de alguns fundamentalistas mulçumanos ao WTC, que mataram 3.000 pessoas, ou quiçá ainda pior a revanche dos americanos, que mataram recentemente 30.000 no Afeganistão, isto sem falar em outros tristes episódios da humanidade tal como o extermínio dos judeus pelos nazistas, ou as bomba atômicas em Iroshima e Nagasaki. Pois é, a natureza humana é fria e cruel, e o homem é levado a cometer atrocidades em nome de uma fé cega. 

Mas fico pensando, imagine você na seguinte cena: sua família, esposa ou namorada, na frente de um assassino estuprador, frio e cruel, e você chega antes da consumação de uma atrocidade ou de um crime brutal, você chega segundos antes de presenciar uma terrível cena, que provavelmente deixaria uma profunda marca em você e nos seus; vamos munir você com uma arma, que possibilitaria evitar a consumação do ato criminoso. O que você faria, sairia correndo? Ajoelharia e pediria perdão a Deus? Ou tomaria uma atitude sensata na defesa de sua família e de sua honra? Em "Liber Oz" - 5, você tem: "O ser humano tem o direito de matar esses que quereriam contrariar estes direitos (Os direitos de Liberdade é claro)"

Segue: "Não cometerás adultério e nem cobiçarás a mulher do teu próximo" - Quanto a isto vou deixar de tecer quaisquer comentários, apenas citarei "Liber Oz" 4 porque assim creio: "O Ser Humano tem o direito de amar como quiser: 
"Tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes".

E finalmente: "Não roubarás" - Óbvio dizer que é simplesmente intolerável termos subtraídos nossos bens pessoais, principalmente quando lutamos e trabalhamos muito honestamente adquiri-los. Veja aí um trecho do pensamento thelêmico de Marcelo Motta em seu ensaio "Moral e Cívica Thelêmica":

"Antes de terminarmos este breve tratado, devemos mencionar o assunto da punição de crimes contra a nação. Quando um cidadão mata outro, isto é um assunto particular entre dois indivíduos, que só merece a atenção da comunidade em termos de profilaxia ou compensação econômica. Colocar um assassino na cadeia é um duplo desperdício: o assassino já subtraiu um cidadão do esforço comunitário; como se isto não bastasse, a comunidade subtrai outro cidadão (o assassino) deste esforço, e paga a sua manutenção com o tesouro público, desta forma onerando a todos por causa do erro de um. Assassinos deveriam ser forçados a trabalhar mais, não serem subtraídos do trabalho; e deveriam ser responsabilizados pelos dependentes daqueles por eles eliminados da corrente social. Caso sejam incapazes de assim fazer, deveriam ser conservados sob observação, porém em atividade; e caso reincidissem em seu crime, assim onerando ainda mais o bem estar comum, deveriam então ser eliminados permanentemente, como perturbadores que são da ordem pública. Mas o assassino, como já dissemos, causa dano a um indivíduo, não à nação; o empregado público, porém, que aceita suborno ou subtrai dinheiro do erário, está causando dano à comunidade inteira. O político desonesto ou o funcionário público corrupto são muito mais prejudiciais à pátria do que um assaltante, um assassino, ou um gatuno. É devido à venalidade de tais empregados desonestos que viadutos ruem dias após serem inaugurados, matando centenas de pessoas; edifícios começam a cair aos pedaços com apenas seis meses de uso; florestas e rios são dizimados pela cobiça cega de interesses escusos, causando incalculáveis prejuízos à ecologia do futuro; e — por último, mas o mais importante! — a atitude de que o governo é patrão do povo, em vez de precisamente ao contrário, é encorajada e mantida através dos séculos." 

Assim gostaria de dizer-lhe que na S.O.T.O. Brasil, cada um segue o seu coração, e que tenha o Amor como sentimento sublime, para reger suas vidas e que portanto o Amor é a Lei e que para não tornar este sentimento uma paixão doentia, escravizado pelo Ego, precisa ser colocado "sob Vontade", a Verdadeira Vontade, que o leva rumo a realização plena da "Grande Obra". Lembro porém que como mencionado em Liber LXXVII, nossa Lei é "a lei do forte e a alegria do mundo."

Quanto ao Manifesto ou a Constituição eles serão o mesmo para ambas (S.O.T.O. e ORMIUN), haja visto hoje a Ormiun ser integrante da S.O.T.O.

Quanto as Qliphot e os Cascões Astrais, penso que o amigo fez uma ligeira confusão. Pelo fato de o termo Qliphot ser extremamente profundo, precisaríamos fazer aqui um tratado sobre Qabalah para explicar o assunto. Mas simplifiquemos. 
Quando o aluno cabalista se defronta com o estudo da Qabalah, ele passa a se enxergar arquetípicamente com a Árvore da Vida ou Otz Chiim, como uma imagem no espelho. Ora para atingirmos o total auto-domínio precisamos vencer antes grande parte de nossas fraquezas e estas junto com seus vícios e o próprio ego. Assim esses são os demônios Qliphóticos que o Mago Kabalista precisará suplantar a cada esfera ou caminho da Qabalah que ele se encontre. Tais "demônios" muitas vezes se manifestam através de Ordálias que constituem os revezes de nossa vida diária. 

Aconselho a você que leia meus textos publicados no acervo de ENSAIOS de nossa HP onde encontrará material farto a este respeito. Já os Cascões Astrais são os restos em decomposição de fluídos eletromagnéticos que ainda sustentam os corpos astrais dos seres humanos desencarnados. Com a morte física este duplo etérico do ser humano tende a se desmaterializar principalmente quando pertencente a uma pessoa Iniciada ou de elevada estirpe espiritual. Assim o Cascão Astral é um cadáver que conserva a forma da alma que o habitou durante o tempo que a energia de que estiver impregnado perdurar. Assim, quanto mais a alma desse Cascão for apegada a baixos instintos morais, mais perigoso poderá se tornar este 'ser' . Muitos espíritas alegam o contato com almas de grandes gênios da humanidade, ou com espíritos dos mortos propriamente ditos; neste particular é preciso que se entenda que essa comunicação é plenamente possível mas quando tal pessoa atinge um estado de maturidade espiritual chamada de Neshamah ou Buddhi. Até que este tenha atingido tal maturidade, será muito mais propício a atração de entidades de baixa estirpe espiritual, que podem ser Cascões Astrais, algum tipo de egrégora, ou mesmo um elemental que se diverte às custas das tolas crendices do ser humano. 

Espero tê-lo esclarecido.
Abraços,
Marengo

Amor é a lei, amor sob vontade.