C A R T A    A   U M    D I S C Í P U L O    D I L E T O

"Eu lhes anuncio o Super-homem.

O homem é superável. Que fizeram para supera-lo?"

"Assim Falava Zaratustra"

Nietzsche

Caro Frater S.:

93.

Empreendi uma longa caminhada. Mas muito ainda há que fazer. Minha grande ordália é a divulgação de Lei e a destruição das lendas e erros que a cercam.

Luto constantemente para a consecução do grau imediatamente acima do atual. Não sei se me resta ainda muito tempo para atingi-lo. Mas isto não importa...

Meu Nome Mágico como Z. é M......, cujo significado você já tem uma idéia qual seja. Uma pista: meu Signo Zodiacal Chinês é aquele do Rato. Portanto....

Siga firme no Caminho, contanto que saiba onde está pisando. Recorde-se: eu estarei a seu lado, como também ao lado de todos os outros (incluso daqueles que me voltaram as costas).

Todo cuidado é pouco com as artimanhas da G.F. e suas filiais disfarçadas em "ordens", "fraternidades", etc., pois somente existe Uma Lei. O resto são meandros. Reflita demoradamente no que lhe falei a respeito dos tais "Mestres Ascencionados"...

Religiões.

O fenômeno da I.C.A.R. representa um trágico episódio (ou melhor dito, um desvio) na História da Raça Humana, com horríveis e desastrosos efeitos reverberando ainda hoje. Durante séculos, seus perigosos e escravizadores dogmas, e um poder oculto dos mais poderosos, deram força a uma política que tem em muito desviado o homem de seu Real Caminho. Em meio à doutrinas roubadas de outras crenças mais antigas, existentes há milhares de anos antes do advento do Concílio de Nicéia, ela conseguiu o controle mágico, social e político através do qual se mantém ativa até nossos dias.

Longe de ser uma religião, na acepção correta da palavra, a I.C.A.R. é, nada mais nada menos, que uma deliberada ação "mágica" direcionada no sentido de alterar o rumo do mundo em benefício de uma terrível força retrógrada. A "supremacia daquela igreja" , o tão exaltado "amor cristão", não é o objetivo final dela; que testemunhe as milhares de vítimas da "Santa Inquisição".

Gnosticismo, Zoroastrismo, Hinduismo, Judaísmo, etc., foram embaralhados, de tal maneira dentro da filosofia e da liturgia Romana que, mesmo depois de séculos, as pessoas, sequer, conseguem vislumbrar a trama.

No entanto, o uso e abuso desta magia jamais poderá permanecer reinando para sempre. O acúmulo de fatos, que agora estão surgindo contra a "História Oficial" daquela igreja, derrubará o ídolo chamado (por ela) "Jesus Cristo".

Somente com a total destruição desta Egrégora, o homem será verdadeiramente livre. Promoção da Vida, não da morte; da Liberdade, da Alegria, e não da escravidão; da Evolução, e não do retrocesso, será o Nome da Nova Religião do Homem sobre a face da Terra. Porquanto, o verdadeiro Cristo reinará no coração de todo homem e mulher As vias de uma Nova Civilização então poderão ser alcançada e seguidas. Elas se alargarão nos conhecimentos tão desprezados e perseguidos, trazidos a nós por vários Adeptos. Tentemos, portanto, aprender nos exemplos deles; então conseguiremos destruir a Feitiçaria de Nazareth.

Somente quatro anos nos separam do tão aguardado Ano Dois Mil - segundo alguns, o início do Terceiro Milênio - e ao que parece, a maioria das pessoas ainda não se conscientizaram do fato. Uma esmagadora maioria de ignorantes aguardam "sinais milagrosos" vindos dos "céus". (Estes sinais já estão aí, para quem quiser ver. E não são milagrosos. Um enorme número de outros se mantêm numa expectativa, variando entre a crença, a ânsia e a descrença, das "previsões" diretamente ligadas aos próximos dois mil anos quando, assim é dito, a Raça Humana atingirá a "Idade de Ouro". Mas, pelo visto, a descrença tem sido maior do que a esperança de melhores dias para a raça humana.

Não é meu desejo afirmar que deveremos acalentar grandes esperanças, ou aguardar acontecimentos inéditos, resultando numa modificação imediata nos rumos em que o mundo vai. A natureza não dá saltos, a não ser que algum fator externo interfira em seu andamento. E como você sabe, ou como sempre nos foi dito, os Guardiões da Raça não são onipotentes, e não podem interferir diretamente em nosso livre arbítrio.

Muitos buscam na fé as respostas às suas profundas dúvidas, enquanto outros buscam na Ciência. Entretanto, nem uma nem outra tem, até hoje, dado respostas definitivas. Em meio a estes dois (aparentes) extremos - a fé religiosa de um lado, e a Ciência do outro - existem aqueles se entregando a um hedonismo exacerbado, somente se interessando pelo prazer fugaz, e tão ilusório quanto a Fé e a Ciência. A maioria de nós não sabe qual o discurso a ser ouvido nos milhares de palanques erguidos por religiões, seitas, partidos políticos, ordens, etc.: e muito menos que idéia ou sistema a adotar - todos, até hoje têm sido falhos. E neste caos característico à todos os períodos de transição entre épocas, cada qual procura empurrar, da maneira que pode, o seu carro alegórico, esquecidos do simples fato de que todos os sistemas, fazendo parte da época moribunda que atravessamos, também estão mortos, e nada, absolutamente nada, evitará esta morte.

Nós procuramos nos colocar acima de todos estes sistemas ultrapassados; uma tarefa que não tem sido fácil...

Também não constitui novidade o aparecimento de "gurus", entrando de roldão na fogueira e incentivando seguidores com promessas vãs.

Ser seguido ou proselitista de um tal guru é tarefa fácil. Ë só repetir como papagaios o que eles dizem. O difícil é não sê-lo. O difícil é arrancar a máscara destas picaretagens, destes "enviados do Divino" - como se o Divino necessitasse de enviados --, destes "magos" fabricados, destes "pastores" de televisão.

Existe no mundo um jogo de enganar o próximo. Este jogo é bastante antigo. Crenças e milagres são criados aos montes. Estes exóticos fatos e personagens surgem em todos os lugares. Mas poucos, pouquíssimos mesmo, se dão ao trabalho de questiona-los: se são legítimos, ou se possuem verá origem, e para que servem, ou "a quem servem". Na verdade eles próprios apresentam suas falsidades, mediante uma doutrina superficial e destituída de qualquer novidade digna de nota. São repetições de coisas velhas, vestidas com novas roupagens enganadoras. Tais conhecimentos, tais doutrinas levam a lugar nenhum, a não ser à becos-sem-saída ou a perigosos abismos.

De modo algum estou questionando, ou tampouco cerceando o verdadeiro direito de todo ser humano acreditar no que bem entender. A liberdade individual tem que ser respeitada, sob pena de perdermos a nossa própria. É nosso dever respeitar e defender a vontade e o direito de cada ser, pertença ele ou não ao nosso grupo social, religioso, político, etc. Mas eles não têm o direito de enfiar suas teorias por nossas gargantas abaixo.

Deveras tenho me alarmado ante o número de manobras feitas por grupos e toda laia de parasitas, aproveitando-se da confusão reinante, para que o poder e o destaque pessoal surjam, como se constituíssem a "meta" espiritual a ser alcançada. Tenho conhecido pessoas que não perdem a mínima oportunidade de "aparecerem"; lutam e esbravejam para que o mundo lhes renda glória e as homenagens necessárias a existência de seus pobres egos. Tais pessoas necessitam do aplauso das multidões, como necessitamos do pão de cada dia. E para atingirem seus fins não recuam em difamar os mais ardentes defensores da raça humana.

Felizmente, a "autoridade" desta gente é a autoridade do mundo externo, e toda e qualquer autoridade deste mundo é falsa por definição. Jamais poderá, de fato, afetar aquele outro mundo que habita em nosso interior.

Conheço muita gente que não consegue perceber que um Real Homem é exatamente avesso a tudo isto; desta necessidade de alarde sobre sua própria infeliz pessoa. Não se necessita de aplausos e distinções para ser um verdadeiro Homem. Os maiores homens do mundo foram aqueles que se mantiveram em silêncio. Eis aí o grande enigma desconhecido. Como pode alguém divulgar uma filosofia sem falar? Ao final desta carta, eu anexo um texto que explica tal paradoxo.

Existe, como você já deve ter percebido, vários estágios para se contatar com aquilo que poderíamos chamar de "perfeição". Mas é necessário muito cuidado para não confundirmos alhos com bugalhos. Narciso, por exemplo, procurou a transparência das águas refletindo sua própria beleza. Infelizmente, ele se deixou obcecar pela imagem refletida. Nietzsche, misturou os planos e enlouqueceu com sua visão do "Super-homem". E assim por diante a história nos dá vários exemplos destas falhas.

Quem procura apaixonadamente o caminho, sem se deixar dominar pelas Imagens glamourizantes de si mesmo, ou pela loucura de visões projetadas, tem seus anseios ligados aos anseios do Universo. Ícaro procurava o mesmo Caminho ao se lançar aos céus em busca do Astro Rei. Um aviso: tanto Ícaro quanto Narciso perdeu-se em suas fantasias. Narciso procurando a fugaz beleza de sua própria imagem, isto é, de seu ego inflamado; Ícaro, infelizmente, usou asas de "cera", que se derreteram ao calor do Sol. Tenha, portanto, o máximo cuidado com sua imaginação sem controle. Ela deve ser um instrumento seu, e não ao contrário. Não podemos nos deixar dominar pela beleza das sereias. Faça como Ulisses. Veja também se o material que você está usando tem a devida resistência ao "calor do Sol". Nem sempre aquilo que imaginamos, ou que usamos, é o certo para o momento, embora possam parecer que sim. Cada plano possui os instrumentos adequados às Leis que o regem.

Extremo cuidado deve ser tomado com profanos muito promissores. Entre eles existem muitos vampiros. Entenda bem o que quero significar com a palavra vampiro.

Qualquer deslize em matéria de Magia é fatal; não somente para o magista imprudente, mas também para aqueles que o cercam. Cuide-se.

As limitações do Conhecimento Mágico são proporcionais à profundidade da experiência do magista. Isto tem sido mal entendido por "magistas" afoitos. Não é o desejo dos Magos manter a magia restringida a pequeno círculo eleito por razões egoístas - mas sim porque é inevitável certas restrições, já que a Magia não pode ser difundida indiscriminadamente. Magia não pode ser socializada (por enquanto).

Magia se vitaliza do interior para o exterior. Por isto, rituais são apenas válidos como símbolos daquilo que virá a nascer no interior do indivíduo. A menos que se adquira consciência espiritual, os elementos materiais da Magia são inúteis. De nada adianta você decorar rituais e executa-los sem que eles se desenvolvam dentro de você. As Iluminações do Espírito não se podem produzir por meios institucionais. Por esta razão é muito difícil que as Escolas de Magia sejam eficazes após a morte de seu fundador, a menos que seu substituto seja realmente O Substituto. Dada a má reputação da magia e a dificuldade de se encontrar um Mestre competente, surge a pergunta do por que uma pessoa deveria interessar-se em aprende esta Arte. A resposta é que a Magia é o melhor modo de satisfazer a ânsia que produz o que carece de sentido. Esta ânsia está crescendo na sociedade, assim como os caminhos para encontrarmos com eles.

A I.C.A.R. vendeu sua "verdade" em troca das ilusões materiais. A verdade da ciência é demasiadamente restrita: a ciência observa o mundo através de uma venda semi-transparente. A arte convencional perdeu seu objetivo. Porém a Magia permaneceu pura, já que não se pode disseca-la. Declarar como alguns místicos o fazem, de que o mundo é uma ilusão não quer dizer que ele não exista. Este é um erro entre aqueles que anseiam abraçar a visão transcendental.

Existe uma grande tendência em se observar a Magia de um modo confuso, como uma força que atua nos limites do mundo físico e desvia as Leis da Natureza com energia totalmente bruta facilitada pelo desejo... isto é absurdo. Somente a força de desejar algo não provocará que aquilo ocorra. Se assim fosse, esportes semelhantes ao futebol não existiriam. Os torcedores desejariam que a bola estivesse sempre nos pés de seu time; o que não ocorre, evidentemente.

Observa o mundo em um grão de areia

E o céu em uma flor silvestre

Sustenta o Infinito na palma de tua mão

E a eternidade em uma hora.

 

 

 

93 93/93

 

 

Frater M.

__________________________________________

O UNIVERSO É UM CONTÍNUO

(Trechos da Introdução à Edição Brasileira do TAO TEH KING)

Marcelo Ramos Motta

Longe de ser uma "tolice mística" , o Livro do Tao é um conjunto de preceitos eminentemente práticos, que devem ser aplicados na vida diária de cada um que deseje conhecer aquela realidade que Lao-Tse chamou o TAO, e os quais infalivelmente, assim aplicados, produzirão resultados imediatos e surpreendentes.

Mas como é isto possível? Perguntarão o céptico e o materialista. Como posso eu, "sem fazer nada", conseguir aquilo que quereria fosse feito? Como posso eu, "ocultando-me", brilhar? Como posso eu melhorar a vida do povo "calando-me"? Como posso eu chegar a uma posição de mando sem lutar, sem falar, sem obrar?

Procuraremos, em um curto parágrafo, estabelecer a base da doutrina de Lao-Tse.

Essa base cifra-se nisto: O Universo é um contínuo.

Todos os homens existimos como concentrações de energia, ilhas, por assim dizer, no mar eterno do Cosmo. Um fio de unidade básica nos une, uma harmonia universal rege a todos os nossos destinos; se quisermos, podemos dizer que estamos todos, em um certo nível de consciência, em estado de empatia uns com os outros. A nossa mente consciente não percebe, em seu estado normal na maior parte de nós, esta constante comunicação, esta constante empatia; mas nem por isto deixa o nosso inconsciente, em um certo profundo nível, de senti-la e experimenta-la. De fato, toda comunicação entre seres humanos seria impossível se um tal laço não existisse; pois a linguagem, como prova a lógica, não é um processo eficiente de comunicação de idéias; é, em si, um processo desconexo e obscuro, uma simples convenção que depende, para seu uso, de uma concordância mútua entre as mentes que a empregam.

Esta tese - o Universo é um contínuo - é básica no estudo da Física, e não é negada nem mesmo pela teoria dos quanta - pois os quanta necessitam, eles mesmos, de um campo para sua propagação.

Sendo o Universo um contínuo, estando os homens em constante comunicação uns com os outros, segue que não é necessário falar para nos comunicarmos com o nosso próximo. Pelo contrário, existe um método mais eficiente de comunicação, que consiste em utilizar este "fio" de empatia que nos une uns aos outros e que nos faz, por assim dizer, irmãos.

Mas desde que este "fio" existe em um nível de nossa consciência do qual, em nosso estado normal, nós não nos tornamos cônscios, é preciso que, se quisermos utiliza-lo para comunicação, nós abandonemos os métodos "normais" de comunicação e, neste nível "normal" , nos calemos.

Este silêncio interno resulta da aplicação prática das regras aconselhadas por Lao-Tse. É, evidentemente, uma coisa que não pode ser imediatamente conseguida pela maior parte de nós, pois envolve o abandono de hábitos arraigados em nossa rotina diária. Mas, pouco a pouco, pela aplicação persistente, paciente e desapaixonada das regras dadas no Livro do Tao, este silêncio é conseguido; e a nossa paz interna ressoa, através desse fio universal que nos une, na subconsciência de outros homens cuja afinidade conosco, seja ela racial, espiritual ou nacional, faz com que eles tendam, natural e espontaneamente, a nos "escutar" - com "ouvidos" invisíveis, mas mais poderosos que os ouvidos chamados "físicos".

Em suma, nós "falamos" diretamente no centro de audição no cérebro de tais homens - e eles nos compreendem muito melhor do que se falássemos através do pesado aparelhamento auditório da espécie animal chamada homo sapiens.

Esta tese, aparentemente assombrosa, é um fato, mas deve ser verificada pela prática, e a verificação é sempre individual. É inútil "acreditardes" no que digo - a vossa "fé" em mim não vos tornará capazes de "falar silenciosamente" ao vosso próximo. É preciso que apliqueis as regras de Lao-Tse, e que verifiqueis, por vossa própria experiência, a realidade do que foi dito.

Mas! - direis - eu quero governar os homens diretamente! Eu quero sentar-me sobre um trono! Eu quero ser eleito Presidente da República!

Ah!... isto é o que quereis, ou antes, o que pensais que quereis; mas será isto o que o Universo quer?

Pois o Universo é inércia; isto é, uma força, ou processo, análogo ao da Gravitação Universal. Os homens somos, por assim dizer, estrelas, cada um de nós em nossa órbita, cada um de nós movendo-se sem fricção em sua direção própria, "caindo" eternamente através do contínuo espaço-tempo; mas esta nossa queda é ao mesmo tempo função do nosso peso, nossa energia, nosso brilho próprio, e função do peso e brilho de todas as outras estrelas do Universo!

Isto é, novamente, um fato da Física.

Portanto, não basta que "queiramos" governar; é necessário que a necessidade de todos os homens seja que eles sejam governados por nós.

Em outras palavra: nós "pensamos"que o povo necessita de que nós o governemos; mas será que o povo o necessita realmente?

Nós "queremos" governar o povo; mas será que o povo quer ser governado por nós?

Pois o Tao é a realidade intrínseca das coisas; e só pode se tornar governante de um povo aplicando o Tao aquele que é, numa determinada fase, numa determinada estação do Movimento Universal, o governante natural e necessário daquele povo.