Arcano 2 - A Sacerdotisa
por Francisco Marengo
"E num último olhar um suspiro... Sob o fogo crepitante, ele via seus olhos chamejantes, pois cercada pela fumaça e pelo fogo da inquisição, emanava-se a cor púrpura de seus cabelos, refletindo-se em suas vestes rasgadas, o rosto pálido emudecido pelo terror da terrível força que a aniquilava, anulando o raciocínio e a vontade, transformando a vida de quem  outrora era a Grande Sacerdotisa repleta por um amor puro e desinteressado,  e que agora só lhe restava como sentimentos a miséria e a decepção. A morte ser-lhe-ia o alívio para as torturas sofridas, os flagelos e o desespero."
(Retratos da Inquisição por FM)

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei
 
        Não queremos ter para com a morte a atitude fatalista. Nem a coragem louca; nem tampouco o apego excessivo à vida, muito menos o pânico de muitos que se consideram espiritualizados. Quem quer que tenha algum conhecimento verdadeiro da Arte da Bruxaria que se intitulava "Ofício dos Sábios", hoje conhecida por muitos como Wicca, sabe que o tempo se encarregou de eliminar as práticas supersticiosas que só ficaram restritas a época da Inquisição. Se a pessoa teve alguma experiência prática dessa mesma arte, saberá que a "Antiga Religião" é a representação máxima do poder feminino representado pela força da lua crescente cuja abertura mental é voltada para os aspectos intuitivos do ser humano. A Grande Sacerdotisa é aquela que encobre a si mesma pelos véus do mistério ante a uma curiosidade daqueles que de fato ainda não se tornaram de corpo, mente e alma, verdadeiros buscadores da Verdade, que se dedicam de fato, ao estudo da filosofia e da prática, em detrimento do curioso que é incapaz de levar adiante uma tarefa, pois está sempre querendo fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e que portanto não consegue executar bem, nenhuma de suas tarefas. Energeticamente pessoas assim estão sempre iludidas  em relação a si própria, bem como a vida.

        Há muitos fatores que devem ser tomados em consideração, mas dois são de fundamental importância para a compreensão desse ensaio, imaginem a Sacerdotisa que assim como o Mago se coloca no centro de dois pilares, num deles observamos a "Misericórdia" que acima de tudo representa a prisão do espírito unicamente aos laços materiais, e o outro seria o "Rigor" que seria a elevação espiritual em cuja união desses opostos representa, não o resultado de uma soma aritmética, da qual só pode haver um total, mas sim o resultado final de um número indefinido de fatores que se contrabalançam, tais como luz-trevas, masculino-feminino, etc. O Sangue derramado pela Sacerdotisa na época da Inquisição são por si só a própria transmutação alquímica que visa a sua Ascensão, pois o aspecto do Divino Feminino representa por si mesmo a própria manutenção do equilíbrio planetário, em seus aspectos mais nobres tais como a reserva, a persuasão, a intuição plena, o silêncio, a diplomacia e a subtilidade do poder. Razão e Intuição eis as chaves desse Poder e a polaridade em seu equilíbrio, afinal quem nos dias de hoje não luta pelo seu espaço na sociedade, pela ambição sadia da conquista de bens materiais (deixemos a hipocrisia, nesse caso, de lado). Mas se entendermos que existe o "algo mais", eu já me congratulo com você, pois é capaz de enxergar um pouco mais que a maioria das pessoas. O verdadeiro Poder está calcado na sua força interna, e por isso mesmo representado pela força da mulher ante a sua capacidade única de gerar a vida.

        A Sacerdotisa só foi derrotada em seu Poder Matriarcal (vide a história de Cleópatra no antigo Egito) quando permitiu que sua impulsividade tomasse conta de suas ações gerando a falta de um equilíbrio. A Racionalidade pura nos programa para agir como autômatos ante coisas da vida, e a intuição nos faz refletir sobre as situações que defrontamos, evitando talvez conseqüências desagradáveis.  A Magia, é muito mais uma arte do que uma ciência, é também o fator pessoal, que nos faz agir num sentido mais diplomático e mediador, chamado de "Caminho do Meio". Vamos exemplificar. Ninguém pode negar que existam marés boas e ruins em nossa vida. É preciso portanto entender que a alma pode facilmente transpor as barreiras impostas  e ganhar as alturas se procurarmos sempre nos centrar em nossos potenciais internos. As intuições só se tornam falhas, nessa ocasião, se surgir uma tensão súbita, que nos faça sentir fartos em relação a esses potenciais.
 
        Por outro lado, uma força compensatória pode entrar em ação; a força de vontade que pode ser suficiente para manter o equilíbrio até que a maré tenha passado e o nó da vida se desfaça automaticamente. Uma coisa é certa — se a vida estiver pendendo na balança, o fato de se deixar de lado a intuição será um poderoso fator de depressão que poderia servir para fazer virar a balança positivamente em relação a nossas vidas. Devíamos antes de nos contentarmos ao dizer que as marés críticas são passageiras, de lutarmos com todos os nossos "Poderes Internos" para mudarmos tal situação, isto bastará para servir de advertência, sobre formas religiosas retrógradas do velho Aeon que nos induzem a uma auto-sugestão paralisadora. Devemos, portanto, reforçar por todos os meios a nosso alcance, a batalha contra o conformismo de uma situação; mas não quero com isso dar a entender que devamos evitar precauções e medidas extremas, pois é nosso dever cumprir as leis da Natureza enquanto  estivermos sob a jurisdição dessas leis. E à atitude mental que me refiro. Podemos lutar ferozmente contra nossos revezes, mantendo corpo e alma unidos pelo poder de uma vontade concentrada.
 
 Amor é a lei, amor sob vontade.